O convidado de hoje é o José Ferreira, conhecido no Instagram como @samurai_de_sandalias.
O José já percorreu muitos caminhos a pé e de bicicleta, sempre com uma filosofia muito própria: simplicidade, ligação à natureza e autenticidade.
Desta vez, lançou-se numa das rotas mais antigas e desafiantes de Espanha — o Caminho Primitivo, até Santiago de Compostela.
Uma travessia que mistura história, espiritualidade e esforço físico: trilhos de montanha, subidas longas, descidas técnicas e o convívio diário com outros peregrinos.
Falamos sobre o que é pedalar por um dos caminhos mais simbólicos do mundo, das dificuldades, das alegrias da estrada — e dos momentos em que o José ficou preso num corta-fogos com lama até aos joelhos, ou parou no meio de uma tempestade para oferecer café aos outros peregrinos.
Porque, no Caminho De Santiago, há sempre alguém para te ajudar — ou a quem podes ajudar.
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E depois de lá seguir viagem, eh, perdi-me outra vez porque eu estava a tentar voltar outra vez ao caminho, mas não estava a conseguir porque o GPS não estava a funcionar bem, estava a acontecer qual coisa. Então, acabei num corta fogos estava todo enlameado por causa da da tempestade e eu já tinha lama até o joelho. Então andei 3 km com lama até o joelho a empurrar a bicicleta até que chego ao final da estrada e tem um arame farpado à minha frente. Tive que voltar tudo para trás, passar pelo rebanho. Outra vez. [Música] Bem-vindos ao podcast Viagens a pedal. Podcast de todos os viajantes de bicicleta. O convidado de hoje é o José Ferreira, conhecido no Instagram como samurai das sandálias. De sandálias. De sandálias. De sandálias. Procura samurai de sandálias. Mas é igual. O José já percorreu muitos caminhos a pé e em bicicleta, sempre com uma filosofia minho própria, simplicidade, ligação à natureza e autenticidade. Desta vez lançou-se numa das rotas mais icóníticas e desafiantes de Espanha, o caminho primitivo de bicicleta, uma travessia que junta história, espiritualidade e bastante dureza física, trilhos de montanha, subidas intermináveis, descidas técnicas e convívio diário com outros peregrinos. Hoje vamos falar dessa viagem, do que é pedalar por um dos caminhos mais antigos até Santiago, das dificuldades e alegrias da estrada e do que se descobre quando se olha para o mundo a partir do Slim. Fiquem connosco para ouvir as suas histórias. Aproveitem já caso não tenham feito ainda para subscrever o canal, ativar as notificações em todos os canais de podcasts ou no YouTube. Olá, José, bem-vindo ao nosso podcast. Estamos a gravar aqui perto do palácio de que é luz que está aqui por trás. Porque é que estamos neste local? Verdade? Porque é perto da minha casa e eu não podia deixar o meu cão muito tempo sozinho, que é o meu Simba que é o meu companheiro de viagem. Ele de momento só é o meu companheiro de viagem de de a pé, mas no próximo mês vai ser companheiro de bicicleta também. Ok. Mas nunca expou, mas ele anda já anda de bicicleta. Tá a fazer uns treinos. Muito bem. Sim. Então, qual é que é a tua primeira memória numa bicicleta? Numa bicicleta? Ei, essa é boa. Então, é pedalar em casa dos meus avós. Foi lá que eu aprendi, foi com o meu avô e com as suas bicicletas da Segunda Guerra Mundial. São bicicletas super antigas e pesadas e grandes, imagino. Car, sim, grandes. E ele também tinha algumas pasteleiras que eram as que nós nos safávamos melhor. Hum. E ele, eu lembro-me disso que que ele segurava na bicicleta e levava-nos um bocado até nós começarmos a ter confiança para conseguir pedalar-nos por por nós próprios. E passavas as férias, lembras-te passar as férias de verão e a andar de bicicleta lá do erra constantement pela Nossa Senhora do Salte. Não, não sei se conheces. Não, por não é uma zona lindíssima perto da minha terra. É perto de Recarei. Recarei que fica Paredes. Paredes Porto. Sim. E e nós fartávamos de andar de bicicleta por lá. Andava muito de mota como avô também. Como avô, pronto, era um bocado irresponsável desse aspecto que ele levava escolheu, levava-me a mim e a e aos nossos primos em cima da moto. Um ia no guiador e outro ia atrás totalmente sem capacete. Mas pronto, é das primeiras memórias que eu tenho, tanto de mota como de bicicleta. É aí. OK. Foi o avô, foi o teu avô que te ensinou a andar de bicicleta para no Tu. Eas em paralelo as viagens, qual é que é a primeira memória de viagens que que te lembras? Eu só comecei a fazer viagens de bicicleta há relativamente pouco tempo, sem ser de bicicleta, viagens, viagens normais, viagens sem ainda, tipo, pedalar, só por pedalar era na minha terra, era lá por recarei e h e era viagens de um dia, não era mais do que isso, depois e com o covid e foi pronto, eu sei que foi com muita gente assim que começar a recuperar o desejo de de pedalar de bicicleta h durante a pandemia. Comigo foi igual. Eu tava fechado no apartamento já há imenso tempo, já tava cansado daquilo e só pensava na minha bicicleta que eu tinha parada há 15 anos em casa dos meus pais. E eu um dia fui lá no fim de semana e peguei nela. Era uma cla, uma BTT do penso que 94, 96, muito pesada. Aquilo pesa 20 e tal kg sem nada. E comecei a fazer viagens de bicicleta aqui perto de Lisboa, tipo pelos caminhos de Santiago, mas aqueles que vão em direção à Fátima. E comecei a acampar e pronto. E depois, passado uns tempos, comecei a esticar um pouco mais a fazer o caminho português da costa, o caminho central e entre outras viagens que agora já me começo a esquecer, que agora já preciso da ajuda do Instagram para me começar a lembrar. Mas foi isso e depois comecei a fazer praticamente todos os fins de semana uma mini viagem, nem que seja aqui por Cintra ou quê. Então foi o COVID, foi maravilhoso. E de facto é verdade, há muitos viajantes que começaram a a viajar de bicicleta durante o covid, portanto foi uma uma boa um bom resultado do covid. Foi foi esse espírito, essa vontade de pedalar. A única coisa que não foi boa foi que, pá, aí durante 8 meses eu não tinha olfato, não tinha paladar e dava-me sempre uma dor de cabeça horrível quando pedalava, mas como eu queria tanto estar fora a acampar, eu fazia na mesma. Até enfrentei uma com um amigo meu, uma tempestade que foi a a tempestade de Ceará, OK? Que eu penso que foi para há dois anos. E e nós fomos de bicicleta do entroncamento até à Serra da Estrela, com tempo horrível, sempre a chover, a chover torrencialmente e com ventos super fortes. Então, começaste a viajar em COVID, os caminhos de Cintra, Fátima e como é que era a logística? Ias à aventura? Sabias que estava marcado ou Eu não sabia nada de mecânica de de bicicletas. Ele sabia o básico que aprendi com o meu avô quando era miúdo. Era o máximo que eu sabia. Com essa bicicleta, desculpa, com essa bicicleta não é Cla. A Cla agora tá em exposição em casa dos meus pais. Hã, mas foi a bicicleta com a qual eu fiz mais viagens. Eu ftei-me de pedalar nela e era horrível. Pesadíssima, pesadíssima. Eu ficava cheio de dores porque ela era um tamanho pequeno para mim. Certo. O material não era bom de nada mesmo de nada. Pneus de BTT muito largos. Por isso, todo o peso que eu punha ainda parecia muito mais peso. Mas mesmo assim eu estava sempre feliz a pedalar naquilo, sempre feliz. E e depois, passados uns tempos, comecei a organizar viagens com os meus amigos, porque eles começaram a achar bué piada e eles e pá, podemos ir contigo? Eu, pronto, eu começo a organizar, eu faço um plano e explico-vos como é que é e pronto. Eh, e então só lhe explicava, tipo, onde é que íamos acampar, como é que íamos arranjar alimentação, onde é que íamos arranjar água e pronto, eles já iam descontraídos a a fazer as viagens com eles. E como é que tu planeias? Tu marcas tudo antes de ir, sabes onde é que vais ficar ou Sim, sim. Sem mais ou menos os pontos de paragem, tipo onde é que há comida, onde é que há água, que é o principal. E depois os sítios para acampar é conforme conforme der, porque há pessoas que às vezes têm ritmos mais lentos e nós não vamos a acelerar para para chegar lá rápido. É tipo, é o ritmo mais lento e e onde der para acampar é onde nós vamos ficar. Às vezes é a beira da água, outras vezes é no meio de um eucaliptal, outras vezes é no meio de um edifício. É o que deve. E porque é que escolheste os caminhos de Santiago? Fizeste muitos caminhos de Santiago, não é? Porque os caminhos de Santiago eram uma era uma paixão e antes de de ter chegado a Lisboa. Era uma coisa que eu tinha na cabeça e não sei porquê, mas ficou-me na cabeça miúdo e eh não cão e e eu fui-me esquecendo com com o tempo. Só que depois cheguei a Lisboa e comecei a fazer muito voluntariado, que era outro do dos meus desejos. A, e então num dos voluntariados que foi na comunidade Vida e Paz, conheci lá uma pessoa com quem me tornei grande amigo e ela estava sempre a fazer viagens incríveis de caminhadas e começou-me a falar: “Ó Zé, tu tens que fazer os caminhos de Santiago”. E eu, mas porquê? Ela: “Olha, não gastas quase nada. Eh, tens a oportunidade de conhecer pessoas de todo o mundo e h e pronto, eu acho que tu vais adorar, que é a tua cara e e é uma coisa p descoberta e pronto, é mesmo a tua cara. E eu fiquei com aquilo na cabeça, pá. Continuei a fazer voluntariado com ela, ela começou-me a puxar para algumas caminhadas aqui por Lisboa. Eu comecei a conhecer mais gente ligada às caminhadas e depois um dia eu decidi, não, vai ser este ano. E acho que foi em 2018, se não estou se estou em erro. E eu fui sem me preparar nada, fui, foi horrível, fiquei todo arrebentado. Qual caminho é? Sei qual? O português, o central. Central e fiquei, desculpa, de bicicleta ou pé. Fiquei cheio de bolhas. Logo desde o primeiro dia, eu nem consegui pôr um pé no chão. Pronto, correu muito mal tudo. Mas ao mal fisicamente, só fisicamente, mas cheguei ao fim, estava super feliz. E então nesse mesmo ano voltei a fazer outra vez. E aí já estava a organizar um grupo de amigos para ir fazer o caminho. O central também, o mesmo caminho, o mesmo caminho. E tá e também foi uma experiência incrível. Depois a partir daí não consegui parar. Só houve um ano, eu penso que foi 2020 que não consegui por causa da pandemia. De resto, fiz sempre no mínimo um ou dois e até o num ano que fiz três. E alternadas, não era? Ou a pé ou de bicicleta. Sim. Depois a partir do covid comecei a fazer de bicicleta também. Pronto. E alternando. Começar. Então começaste até covid a bicicleta é mesmo só depois de covid. Portanto, até covid tudo a pé. Central, o que é que fizeste mais? O o da costa, o primitivo e o espiritual. OK. Penso que não tá a faltar nenhum. E depois na pandemia começa a bicicleta. Sim. Qual é que é a diferença de fazer um caminho a pé ou fazer de bicicleta? Então, primeiro é que a pé tu tens muito mais oportunidades de ter experiências cómicas. Ok, uma boa definição. Essa tipo, tens a oportunidade de conhecer muito mais pessoas, tens a oportunidade de prestar atenção, tipo, a animais que te aparecem no meio da da erva que de bicicleta provavelmente não terias a oportunidade. Eh, se tens oportunidade de, tipo, teres um problema qualquer banal nos pés ou quê e vai aparecer alguém que te vai dizer para te sentares ali no muro assim do nada para te fazer uma massagem ou quê? Isso já já me aconteceu. Já me aconteceu tipo as pessoas pararem-me para me darem água. É incrível. É. É. Mas de bicicleta também acontecem coisas do género, só que não é na mesma proporção de bicicleta. Tu passas mais tempo sozinho. É muito mais comum isso do que do que a pé. a pé as pessoas vão aparecendo e se tu se tu tiveres disponível para isso, porque há pessoas que não estão e pronto, e estão sempre a andar a andar e parece que que é tipo o objetivo é só chegar ao sítio. Mas se não tiveres nessa, tu vais encontrar pessoas que te vão partilhar histórias de vida, que vão partilhar um pouco da comida delas, que até te vão pagar, se calhar, o alojamento que a mim já me aconteceu, que eu não tinha dinheiro porque já estava há três dias sem conseguir levantar dinheiro porque não existia sítio onde levantar e e pronto, isso é incrível. É tipo, tudo sais plano e as soluções aparecem sempre. Mas e o ritmo? E o que é que sentes? Hum. Em termos é mesmo diferente ou ou o que é que tu sentes diferente de entre no final de uma viagem de um caminho de bicicleta versus um caminho a pé? O que é que tu sentes no teu interior? Eh, o que é que o que é que sai? Que memórias é que serão mais intensas ou menos intensas? Estou aqui a demorar de fazer pergunta. de bicicleta tem diversas coisas interessantes que é o sentir o vento na cara, o poderes descer tipo uma encosta toda de pedra que que provavelmente a pé até seria mais complicado, mas de bicicleta se tu fores confiante tu fazes aquilo na boa e é uma experiência incrível, sentes mesmo que a caralina começa ali a bater ao máximo e a pé não tens essa experiência. Pronto, para mim é isso. É de bicicleta, é sentir o vento na cara. é sentir a chuva a bater, é ter pequenos problemas, pronto, que já me aconteceu várias vezes, e a rebentar-me a corrente e e também aparecer alguém para me ajudar no no meio do percurso. Hum, é tipo sentir que eu tenho ali tudo comigo mesmo, tipo a tenda, a comida e e que sou autossuficiente nessas viagens. Tipo, se eu quiser ficar a dormir junto a um lago ou junto a um rio, eu consigo. OK. Não preciso de planear nada. E a pé não consegues fazer isso também o estar autossuficiente, levar mais um bocadinho mais de peso, não é? De carga. consigo, mas é mais complicado porque, por exemplo, se eu for sem plano para uma AP, a comida pode-me acabar, o dinheiro pode-me acabar e se isso acontecer e se eu tiver no meio do nada pode ser complicado. E isso já me aconteceu, que por acaso apareceu também uma pessoa e só fome, hh, mas pode não acontecer e pronto, e ficares num situação complicada de bicicleta, tu consegues sempre planear por excesso, certo? E então tens sempre o suficiente para mais do que três dias, se quiseres. OK. Então safas bem. Coisa, acho que és o nosso primeiro entrevistado. Esta dualidade não há muitas, em geral uma pessoa especializa-se num numa num num ou na bicicleta ou na caminhada e fazer estas duas é uma é uma dualidade engraçada de e e tipo e de bicicleta agora também posso levar o meu cão que é a próxima experiência. Levar o, e eu acho que vai ser interessante levar a tenda, levar tudo e ainda levar mais o Simba. Muito bem. Então vamos lá pegar no caminho de Santiago. De Santiago, o primitivo. Caminho primitivo. Então, como é que surgiu a ideia de fazeres o caminho primitivo? Uma vez que tu já tinhas feito primeiro a pé e depois quiseste fazer bicicleta. Sim. Sim. Então, primeiro a pé. Eu tinha tinha acabado uma relação e queria fazê-lo a pé porque precisava desanobiar um bocado a cabeça e eh queria fazer uma coisa que eu que eu via pelos vídeos no YouTube que era espetacular mesmo. Era um um caminho que eu podia passar vários dias sem ver ninguém e que podia totalmente estar totalmente sozinho com os meus pensamentos. Depois de bicicleta era porque eu tinha gostado tanto daquela experiência que que quis fazer agora no meu novo meio da de locomoção, das últimas viagens que é uma nova foi queeste upgrade. Sim, sim. Que é que é esta que é esta giant primeira era a Círla, depois passei para a Giant e a Giant eu construí um mês antes da da viagem. E porquê? Porque eu tive um acidente mesmo par. Eu levei com as portas da de uma estação da da CP. E caí de costas e desmaiei, Apaguei mesmo e quando me levantei não me conseguia mexer. Ou melhor, mexia-me, mas era arrastar os pés. Porquê? Porque lesionei o coxis. E eu não acredito que isto aconteceu, mas pronto, eu pensei, não, isto é uma oportunidade. Vou aproveitar para construir a bicicleta que eu preciso para fazer esta viagem. E então dediquei-me durante um mês a construí-la. O quadro foi-me oferecido por um amigo meu que tá ligado também às bicicletas e às cicloficinas. E depois tudo o resto foi foi de outras cicloficinas, tipo cicloficina de Almada, dos Anjos e mais umas peças que eu tive que comprar mesmo no LX que já tinham sido usadas, tipo o guiador penso que era de uma senhora que que já tinha feito viagens pela América Latina de bicicleta e ela vendeu-me pelo LX e pronto, eu durante o mês fiquei-me só nisto, mesmo lesionado, ea acreditar que ia recuperar para fazer a viagem porque porque eu, pronto, já tinha planeado que ia fazer e ia fazer. Hum. Então ao final do mês eu senti que tinha as condições mínimas e fui. Eh, o objetivo inicial era fazer o caminho primitivo ao contrário de a começar por Valença de do Domínio, ir até Santiago e depois é o primitivo de Valença ou de O primitivo ou de Porque eu fiz ao contrário de bicicleta, mas ah para Santiago e era partindo de cá do do sul. Sim, sim. Então comecei de Valença domingo até Santiago e depois de Santiago apanhei o caminho primitivo, mas sempre ao contrário até ao Viedo. E a ideia inicial era continuar até a Itália, OK? Porque eu queria visitar um amigo meu, só que como eu não tinha condições, portanto ainda estava meio ilusionado, então tive que começar a pensar, se calhar vou ter que reduzir a viagem. Então, a ideia era ir até à fronteira de Espanha e se calhar até encontrar-me com a minha amiga Lia, porque ela ia fazer só miedo e ia coincidir com a altura que eu ia chegar ao Viedo. Então nós pensamos, se calhar isto vai dar para unir duas viagens. Então acabou por não dar porque eu apanhei-me uma tempestade tão grande que acabei por me atrasar dois ou três dias e então ali, entretanto, já tinha ido para a montanha e eu já não a conseguia apanhar. Hum. Hum. E pronto. Então, mas saíste acabaste por sair então de de Ponte Lima para Não, não, Valença, domingo. Valença. Valença. Sim. Eh, de Valença até Santiago e de Santiago em direção a Oviedo. Sempre ao contrário. Portanto, tiveste umas subidazinhas pelo caminho. Várias subidas, porque o primitivo é assim, é sempre a subir e a subir. Sim, sim. E é tipo Valença domino, estás praticamente ao nível do mar e no ponto mais alto do primitivo acho que estás a é quase a 12200. Por isso tive que subir isso tudo. Fazilo ao contrário. Tem a vantagem. Cruzas-te com muitas com as poucas pessoas que existem, tu cruzas com eles todos. Vais em sentido contrário. Sim. Então eu cruome com muita gente, mas só os vejo uma vez. Só os vejos uma vez. Sim. Não há, não há continuação. Não é como quando fiz a pé que eu cruzava-me com uma pessoa, deixava de haver durante uns dias e depois encontrava passado cinco ou seis dias. Aqui não. Aqui eu estava praticamente sempre sozinho. Mas e tu é que trazias novidades porque eles é queriam saber o que é que acontecia à frente. Tu é que sabias o que é que havia à frente para lhes dizer quando eles perguntavam. Sim, eu já sabia tudo. Sim. Hum. Hum. E então, pronto, e os primeiros dias foram espetaculares até Santiago. O tempo estava impecável, um solo do caraças mesmo. Estava a pedalar super bem até o bom dia que fiz para aí 120 km. Em que altura do ano? Desculpa, é que fizeste? Olha, agora que é que me lixaste. Eu já me lembro. Tava frio ou ch? Não, espera verão, pá em junho, por isso deve ter sido pai em julho, penso eu. Tava tava quentinho. E h tava quentinho, mas estava quentinho só até Santiago. OK. Depois de Santiago veio uma tempestade e foi os dias todos da viagem sempre a chover, chover e vento e no voeiro. Eu havia dias que eu não via nada à minha frente. OK. Ya, foi durinho. Hum. Mas pronto, pá. E o que é que gostaste? Porque tu eu também conheço, já fiz o caminho, também fiz ao contrário. Portanto, as as a memória que eu tenho das subidas e não não coincidem com as tuas, porque são as minhas são as nossas descidas. Ya, o que é que tu e fazer oo contrário também deve ser porque a memória que eu tenho é que o caminho de Santiago em Oviedo é lindíssimo, acaba começa no meio das montanhas. Tu acabaste, tens essa, no fim vais ter esse esse é o bónus final, não é? Mas hh e o deserto, não é? E e o e o deserto de pessoas, aquilo não não tem quase ninguém. É essa não tem não. Ainda para mais que uma tempestada em cima. Eu não encontrei quase ninguém, acabei só por estar com três pessoas, se não tem erro, em dois dias. Porquê? Porque eu acabei a fazer aquela parte de polha dahandé duas vezes. Porquê? Porque aquilo tem dois percursos e eu quis fazer os dois. Ah, já tinha-te enganado? E não enganei-me. Ah, mas eu digo que eu não quis fazer os dois. Não toque mais. Então, porque é que eu me enganei? que eu estava a fazer ao contrário e estava um novoeiro gigante. Então eu não conseguia ver nada quando estava lá no topo, pá. Estava muito mau tempo. Eu eu quase que não me segurava em cima da bicicleta e e não conseguia ver as marcações porque não dava para ver mesmo. Então acabei por tomar o segundo percurso, aquele que eu não conhecia. OK. que é só cascalho, só cascalho até lá baixo. E e foi complicado, foi muito complicado porque, pronto, era isso, pouca visibilidade, o vento muito forte, sempre a tentar-me deitar ao chão, a chover imenso. E ias acampando ou ias frente? A não, aí eu acabei a ficar no albergue, que é um albergue espetacular, que que eu adoro ficar que é um privado. Hã, qual onde é que é? Qual é que é? Ah, agora não deves ter não temos não, eu tenho, eu tenho, eu tenho no Instagram e se que a casa Pascoal. OK. Agora o nome da terra que eu eu não me estou a lembrar agora. Hum. E que é incrível. É um albergue daqueles perdoação que tu sentes-te mesmo em casa, não tem nada a ver com com um albergue em que tu pagas para aí 20 ou 30 € e aquilo é quase um hotel. Mas eu acho que no caminho permitivo há vários, há vários desses que também fiquei num ou outro onde também a doação e eu conceito é giro. Tu entras mesmo na casa das pessoas e jantas o que houver, não é? que tu deves ter passado quase certeza, que é dos mais conhecidos e que também é do género do Pascoal que é o de Bodenaia, não sei se é esse que é um todo em madeira por dentro a comida tão estético, não era assim tão tão estético o que estou a lembrar madeira que que passa assim como uma casa mesmo, só que é incrível porque é todo em madeira, depois tem montes de fotos de peregrinos, bandeiras de todo lado. OK. Acho que não foi. Hum. Hum. Mas é, ou seja, e o que é que como é que era os dias se estava sempre a era a pedalar, sofrer, chuva. Sim. E tipo, se conseguisse chegar ao Alberto, ficava no Alberto. Se não conseguisse, ficava numa tenda, acampava no sítio que desce. Ok. Ya. E foi e foram vários dias ou passou? Sim, se não estou em erro, foram penso que 15 a 17 dias a pedalar. Sim, sim, sim. Porque foi Valença até até Santiago, Santiago até ao Pietro. Acabou a ser pai 600 km porque houve p dois ou três dias que o tempo estava tão mau que eu acabei-me a perder. Acabei a subir montanhas que não era para subir e eu tenho uma história engraçada que foi eu subi uma montanha toda e e aquilo não me estava a aparecer nada ao caminho, mas eu estava a adorar. Então, continuei e e era só terra batida e cascalho e de repente pá, parecem-me dois cães gigantes com pregos assim ao pescoço e começa a vir a ladrar para mim e eu olha o que é que eu vou fazer. É que eu estou aqui sozinho, não há ninguém. Então parei, eles pararam também e ficaram a olhar para mim e eu comecei a chamar por alguém e ver se alguém aparecia. passado um bocado, aparece uma uma carrinha e venho uma carrinha e era um é a carrinha de um pastor e ele ah eu estou aqui com um grupo de acho que era de 500 vacas e mais não sei quantas ovelhas e e ele disse: “Tu precisas passar”. E eu: “Eu queria passar, mas assim não consigo com todos os cães.” E ele: “Ah, não te preocupes, vens comigo a acompanhar o carro que eles não te fazem nada, mas não olhes para eles, nem tentes tocarem nenhum nossos animais”. Eu também. E então ele acompanhou-me ao longo do trajeto todo até ultrapassar o o rebanho e o rebanho dele. Hum. E pronto. E depois lá segui viagem. Eh, perdi-me outra vez porque eu estava a tentar voltar outra vez ao caminho, mas não estava a conseguir porque o GPS não estava a funcionar bem, estava a acontecer qualquer coisa. Então, acabei num corta fogos estava todo enlameado por causa da da tempestade e eu já tinha lama até o joelho. Então andei 3 km com lama até o joelho a empurrar a bicicleta até que chego ao final da estrada e tem um arame farpado à minha frente e tive que voltar tudo para trás, passar pelo rebanh outra vez ou não? Não, não, não. Depois descobri que havia outra estrada de terra batida e depois lá apanhei uma estrada e pronto, já consegui voltar ao caminho original. Mas perdi um dia inteiro naquilo. O que é que se O que é que passa pela cabeça nesses momentos de dificuldade? Isto é espetacular ou não? É espetacular. Eu só me rio com isso e já estava a ficar exausto, mas só pensava, pá, os meus amigos vão-se fartar de rir quando contar isto. Ele é mesmo a tua cara acontecer isso. Eu ya passa-se, né? E depois no fim depois é fica para fica para para a memória e para Sim, sim, sim. Acho que nunca me vou esquecer disso, sinceramente. E e as pessoas, tu conseguiste ter algum contacto com pessoas locais, com alguma Ah, aí foi nos albergues, principalmente esses de de doação, porque já os conheço e e gosto mesmo deles e gosto de lá voltar sempre que posso. Eh, e depois com alguns peregrinos que por acaso voltei a reencontrar passado passado um dia ou dois, tive a sorte de reencontrar. OK. Mesmo no sentido contrário, porque eu porque eu que eu como fiz aquele trajeto outra vez, estás a perceber o ou melhor fiz a opção B de palha da voltei a reencontrá-los e isso foi giro e não nos acompanhamos durante uns quilómetros. Ya. Ok. Eh, então que mais imprevistos é que tiveste além deste dar duas voltas para o mesmo sítio? Aí a empolha da Land H tive um problema com a corrente. H esta a parte do desviador dianteiro partiu. Não, não partiu, mas Ah, não, não foi o dianteiro, foi o traseiro. Ele ele bloqueou aqui por causa de uma pecinha que tem aqui que se entrotou para dentro. Sim. e deixou-me deixar correr a corrente e eu estava ali no meio do nada e não tinha nada para puxar o ferro outra vez para o sítio. E então eu ando uns metros para a frente e descobri uma casa. Era a única casa que existia ali e eu vou lá a correr, bate à porta, bate à porta e um senhor apareceu e eu pedi-lhe para para me ajudar. Então ele arranjou-me um ferrinho que eu trago sempre comigo na na nas viagens e que me deu para desentrotar isto e pronto, consegui continuar até à próxima à próxima terra. Hã, outra coisa que me aconteceu também aí foi eu levava o meu drone, lancei o drone com a tempestade e eleou-se contra uma árvore, partiu-se todo. Teve arranjo ou ou não teve teve arranj do lado do seguro e pronto, mas na altura fiquei pior que estragado quando vi aquilo. E quando estás no meio dessas da tempestade, como é que tu te sentes perante a natureza? Sentes aquela esmagamento de sou tão pequeno comparado com com isto tudo ou Sim, sim. Eu gosto muitas das vezes de parar e ficar lá só a apreciar, às vezes até uma tempestade e fico lá a apreciar a levar com a chuva na cara. É a minha cena. E e tipo na montanha lá em Palheira da eu também parei para fazer café para os peregrinos e estava um tempo de de caca mesmo. Mas mas houve ali um momentinho de sol. Então parei e comecei a fazer café. Depois lá, entretanto, os meus amigos que eu tinha conhecido no albergue no dia anterior passaram por mim e tivemos lá a tomar café. E foi um momento bué giro. E é isso. E o que é que em ti nestes anos eh que levas aí de tantos caminhos feitos, o que é que vai mudando? O que é que tu vais ganhando com estas viagens, com estes com estes caminhos? Eu acho que é mais a capacidade de Zer Rascanso, porque eu agora, tipo, tenho uma avaria e já saí resolver, já resolvi um problema nos travões que que não eram estes, eram uns cant muito maus que praticamente não travavam que o cabo saiu. Porquê? porque o parafuso que tinha a segurar o cabo rebentou e eu não tinha outro parafuso para aquilo. Então resolvi o problema com fita cola preta e a e uma presilha do IKEA e aguentou o resto dos dias a trabar mal, mas aguentou. Morer ou estás a ficar um eu cada vez fico mais miber, então trago sempre comigo presilhas, fita cola preta, às vezes molas e isso ajuda-me sempre. ou montar cordas para estender roupa. É incrível. E eu e eu acho que é das maiores capacidades que viagem viagens de bicicleta nos dá, que é tipo saberes o que fazer quando não tens praticamente nada, porque parece que não tens nada, mas tens tudo. É incrível. Estás sempre pronto. Sim. E no per a chuva, voltando aqui ao caminho, a chuva acompanhou-te sempre ou deixaste ter em algum momento? Não. Então chegas depois depois de Santiago estava com a esperança que houvesse foram 300 e tal quilómetros ou 400 de chuva sempre chuva e noveiro. Então quando chegas aos aos pigos da Europa a chegar ao Viedo, não tens a noção, não consegues ver toda aquela magnitude das montanhas. Consegui em algumas partes porque as nuvens estavam abaixo, certo? Eu até tenho alguns vídeos disso que que era incrível chegar lá, subir acima das nuvens e fico uma vista espetacular quando só vinha a sofrer até ali. Os olhos ficavam, não era incrível. Era incrível. Chegavas lá e estava sol e tu ficavas lá sentado assim a apreciar, a comer um pão e parecia- a melhor coisa da vida, a conversar com peregrino, que por acaso também estava lá sentado a recuperar um bocado e h e pronto. E logo a seguir vais outra vez para a tempestade, começas a descer. Pois, passa, passa rápido, que é o problema, não é? É muito tempo a subir e para ver depois a seguir é é logo. Mas nós é que definimos o tempo que passamos lá em cima, certo? Nada me obriga a continuar. Eu podia acampar ali. E este ficar o dia todo a pedalar ou vais ou pedalas vezes um sítio de repente te agrada ou estás farto e paras logo ou não fazes o dia todo? Isso é isso. Às vezes ficava o dia todo a pedalar porque estava a sentir que, pronto, estava com vontade de o fazer. Outras vezes não. Outras vezes, tipo, só me apecia fazer 20 ou 30 km. 20 acho que não, mas tipo 30, 35 km e eu ficava por aí porque sentia-me satisfeito. O que é que mudou na tua perceção do tempo e da geografia com viajar de bicicleta? Sim. Eh, então, hh, deantes, como eu só fazia caminhadas, eh, eu precisava de cinco dias para fazer c tal quilómetros ou se calhar, quer dizer, houve uma vez que até fiz em três, uma distância do género, mas não é o ideal, porque tu acabas a acelerar demasiado, acabas de sofrer demasiado. Pronto. E de bicicleta, eu aprendi que em cco dias eu posso correr muito mais distâncias, mas ainda uma velocidade muito humana, porque eu ainda consigo prestar atenção eh a imensas coisas relacionadas com a natureza. Consigo ter encontros com pessoas, parar num sítio que me apetece parar, porque consigo visualizá-lo uma velocidade humana ainda, ao contrário de de viajar de carro ou viajar de de mota, uma pessoa passa tão rápido que acaba a ficar apenas com uma percepção geral do que é que está a ver e do que é que está a sentir. E de bicicleta, não. De bicicleta é como se tivesse a caminhar, mas a caminhar uma velocidade muito superior. E e já sentiste que o tempo passa de forma diferente quando se anda de bicicleta? E é mais rápido ou é mais devagar? Eh, depende. Eu acho que depende, depende de como é que está a correr dia. Se estás a ter muitos perrengues, se estás a ter muitos problemas na bicicleta, se calhar parece que o dia não acaba, mas se estás a ter problemas e ao mesmo tempo também estão a aparecer as soluções, seja através de ti, seja através de outras pessoas que te aparecem no caminho, no caminho, eu estou a dizer no caminho de Santiago ou numa viagem qualquer de bicicleta. hh o tempo não flui da mesma forma. Eh, por isso é é relativo. Não não te consigo responder bem a isso. Tá a respondid eh depende. HH olha, uma coisa que que eu achei piada é que encontros. Recordas-te de algum encontro e as bicicleta e de repente encontras-te alguém que te faz mudar o destino para onde dias ou rota para onde dias? Eh, então, eh, no caminho primitivo tive um encontro com com um americano da da Califórnia que que estava caído lá no meio de uma montanha, no meio do nada, aquilo não havia casa nenhuma próximo. E ele estava cair debaixo de uma árvore, a única árvore que tinha ali. E e estava um calor horrível. Tava tava tempo meio tempestado, mas naquele momento estava tava calor. E eu, queres ver que o homem h desmaiou ou aconteceu qualquer coisa? E e fui lá ver e afinal não, ele simplesmente só estava a descansar e ele começa-me a perguntar o que é que eu estou a fazer. Estou a fazer aquilo de bicicleta ainda por cima ao contrário. E e eu disse: “Sim, porque não?” E e ele depois perguntou-me se eu queria ir comer lá um sítio próximo, porque pelos vistos havia ali um Oasis que que eu não conhecia, que era uma casa que tava tava de certa forma embotida na montanha. tava meia escondida e que que era uma espécie de alogiamento local com restaurante, mas passava despercebido, ninguém sabia que aquilo existia e e ele tinha estado lá umas horas antes, então ele levou-me lá e até me ofereceu o almoço e comemos pizza. Acho que foi pizza, mas a pizza era muito boa, era daquelas pizzas de forno de lenha. E e pronto, tivemos ali à conversa sobre a vida e sobre o porque estávamos a fazer o caminho e e foi incrível. Este foi um daqueles momentos, mas ao longo destes anos todos já aconteceram vários do género. Já me aconteceu outro também no caminho português que eu ia com a bicicleta anterior, não era não era esta, era com a Círla e que eu já estava há horas a pedalar num sítio que era fora do caminho e eu já achava que estava perdido. Queres ver que eu me enganei e nunca mais vou chegar ao sítio e já estava cheio de dor, já não aguentava mais. já acho que já ia para aí com 100 km acumulados com aquela bicicleta da Crila. É mesmo muito e com tenda e tudo atrás. E de repente apareceu um senhor de bicicleta que se chamava Anguel e e ele perguntou se eu estava bem e eu mais ou menos. Eu já quase que não consigo olhar para a frente de tantas dores que eu estou a sentir neste momento. E e ele disse: “Pode é que vais?” E: “Ah, vou ali para Padron”. E ele, “Então acompanho-te até lá”. Ainda faltavam imensos quilómetros até lá. Então ele acompanhou-me e foi o tempo todo a falar comigo que era para me manter consciente porque ele já estava num estado que eu, pá, vou ao mínimo à mínima pedra que se meta debaixo da roda, eu acho cai para o lado que eu já estava nesse estado, estava todo queimado e tudo. E h e ele acompanhou-me até para a drone, deixou-me lá junto ao albergue e seguiu a vida dele e voltou para trás tudo, porque onde eu o apanhei era próximo da casa dele. E isso foi foi outroos momentos incríveis que que me apareceram em viagem. Conversas marcantes que às vezes também acontecem com eventos. Houve uma que por acaso ficoume bastante na cabeça, mas não sei se posso partilhar porque porque é uma conversa, não é? não é minha, é uma conversa muito íntima de outra viajante e que que eu lembro que pronto, só nos vinham as larmas aos olhos dela partilhar aquilo connosco. Eh, deixem-me ver se me lembro se me lembro de outra. Assim é difícil, por acaso não estava à espera da dessa pergunta, mas mas essa é que me vem logo à cabeça, que foi das que me ficou mais na memória. Mas pronto, posso contar de outra pessoa porque acho que essa não não tem tanto problema. que foi uma viajante que eu conheci que que estava com dilemas em relação à à sua situação profissional. Porquê? porque ela ia dar uma cadeia de detalhes, mas não era cá em Portugal, era de outro país e era uma coisa gigantesca mesmo. E e ela tinha 20 e poucos anos e era a única pessoa da da família que podia carregar aquele peso e que queria de certa forma carregar aquele peso porque ela não pensava no negócio. Não, não era pelo pelo negócio da carne, isso não lhe dizia nada, era pelas famílias que estavam associadas ao negócio da carne, todos os produtores que produziam aquela carne para aquela empresa há décadas. E então ela não os queria deixar desamparados e e ao mesmo tempo ela tinha 20 e poucos anos. pensava, eu devia estar a divertir-me, mas eu só consigo pensar que eu tenho que que assumir as rédias daquela empresa. E pronto, e acho que depois do caminho, ela depois de tanto desabafar essas questões connosco e nós desabafarmos as nossas com ela, ela foi muito mais forte para casa. E eu acho que ela foi para casa uma líder muito mais completa. Ela já era, só que eu acho que ela não tinha consciência que já era uma líder com 20 e poucos anos. E e hoje em dia acho que ela tá feliz e tá feliz o o que está a fazer. Olha, se a tua bicicleta fosse para um museu, hã, que histórias é que gostavas que ela contassem sobre bicicleta? Eu gostava que esta bicicleta atravessasse a Europa toda, que que atravessasse o Anteas, que era para ter feito este ano com a Lia, só que como comecei a trabalhar na landscape, a fazer o Peru, não consegui ir, que foi foi uma coisa que me chateou imenso, porque quando a Lia me disse, ela disse: “Não queres ir fazer o antiatles comigo?” que eu eu queria quero que eu queria fazer Marrocos este ano, mas acho que não vou conseguir porque vou vou fazer o Peru agora com Landscape nessas datos e pronto e e eu era essa história que eu queria para ela, era atravessar a Europa toda, era h fazer o anti-atlas e se possível chegar à Ásia um dia destes. Era isso que eu queria para ela, porque esta bicicleta é mesmo muito especial para mim, por ter sido uma bicicleta com os esforços de ciclo oficinas, que também passou ali por por um período em que eu estava a atravessar mudança de casa, em que eu perdi a minha casa, em que eu me separei, aconteceram imensas coisas que me podiam ter desestabilizado, mas pelo contrário acabou foi a motivar-me para fazer coisas novas e que é o que está a acontecer. Por exemplo, o trabalho que estou a fazer no Peru, provavelmente não estaria a fazer se todas essas coisas não tivessem acontecido. Foi isso que me impoliu a aventurar-me ainda mais um pouco, porque eu eu já sentia que estava a estagnar no meu nível de de aventura. Eu isto já não me tá a motivar tanto que me motivava há uns anos atrás. Agora preciso de mais algo. Mas eu não sabia o que é que era porque nem não conhecia. E agora eu sei, é este tipo de aventuras que estou a fazer no no Peru, que me expõe a a muita adrenalina constante e eh que pronto, eu acho que é o próximo passo e a seguir penso que será as aventuras com esta bicicleta, que é prolongar ainda mais as viagens, OK? Que é o que eu desejo, que é tipo em vez de ser um mês, é daqui a pouco estar a fazer 3 meses, 6 meses, talvez mais. Vamos ver. Muito bem. OK. Mais alguma, algum projeto que queiras destacar eh além de além da bicicleta? OK. Eu gostava de voltar a um projeto que eu deixei em standby, que foi ilustração científica, que eu andava a investir imenso tempo naquilo, eh, só com estes problemas que que eu te estava a dizer, com o perder a casa, com o ter que arranjar soluções para para conseguir pagar uma nova casa e e também para poder aventurar-me mais um pouco, eu tive que parar. Mas gostava de voltar porque é outra parte da minha vida, é parte artística, é parte também do ativismo e isso agora tá assim meio em standby. Só estou pelas cicloficinas para já. Muito bem. Olha aqui umas em gente de conclusão, umas perguntinhas que fazemos sempre aqui aos nossos convidados, que é uma delas é o que é que tu levas sempre numa bicicleta? O que é que eu levo sempre? Boa disposição. Boação. Eu acho que é o que eu levo mais. É boa disposição e sempre alegria. Seja para um dia que está um sol espetacular, seja para um tá a trojar o dia todo e a chover torrencialmente, eu vou encarar sempre da mesma forma. Aliás, às vezes até encaro com um espírito mais de alegria, uma tempestade do que um dia de sol. Então, o que é que é para ti um bom dia de viagem de bicicleta? É um dia que eu posso presenciar várias coisas, tipo a nobelina da manhã, gelo entre as folhas, vento na cara e sol, momentos em que eu já estou em regelar e de repente começa a aquecer com o sol, começa a aparecer por entre as nuvens. é esses pequenos presentes que a natureza me vai dando. Isso é o que eu gosto mais de presenciar ao longo de uma viagem em bicicleta. E depois é as histórias que me aparecem, tal como agora apareceu aqui o Chico Rosa, são pessoas desse género que me aparecem, que me dão um pão, que me dão uma ferramenta ou que simplesmente só vão ali perguntar se eu estou bem ou querem meter conversa. E às vezes é isso, eu sento-me ali num sítio só para comer qualquer coisa, alguém senta-se ao meu lado e começa-me a contar a vida. Isto é o dia a dia, seja a pé ou seja de bicicleta. E se pudesses voltar para um dia de uma das muitas viagens de bicicleta que fizeste, qual é dia que voltavas? É isso é, isso é muito complicado. Não sei aquele momento do caminho primitivo em que eu vou a subir sempre com tempestade e subo acima e de repente fico as nuvens cá em baixo e estou estou com um sol perfeito. Esse foi dos melhores momentos que eu já tive de bicicleta. foi chegar ali a cima e de repente estou outra vez a levar com o sol, a sentir-me a a rejuvenecer porque eu já vinha ali tipo todo todo travado e e ter aquele momento de paz de estar ali só a refletir no dia que estava a decorrer, no porquê de estar ali, no que é que queria fazer a partir dali e estar a presenciar aquele aquele momento. É isso. estar no momento. Para mim é isso. Eu não sei. E qual é que é a próxima viagem? Já tá planeada? Não, para já não. Ainda não tenho não tenho nenhuma viagem definida, nem de trabalho, nem de nem de pronto de de vontade própria. Hum. Mas mas tem que incluir o cão. Tem que incluir o Já tens o Estás a treinar. Ah, pois, desculpa. Não, tens razão. Tens razão. No início. Voltando ao início. Então, voltando atrás, é é tenho agora uma viagem, mas é uma pequena viagem, que é a minha primeira viagem de de teste com o Simba, que é agora em outubro, que vamos fazer o caminho de Santiago. Primeiro vamos fazer a pé, vamos de Valença Dominho até até Santiago. Pronto, são 120 km por volta disso. E como é que o levas? Ele vai andar. Vai, ele vai andar aí. Porquê? Porque eu vou com um grupo de amigos que é a nossa caminhada anual, que é para juntar toda a gente e eh depois de Santiago para Portugal vou voltar de bicicleta com ele. OK? Então a bicicleta vai à mão comigo a viagem toda, com tenda, com tudo e e com a ração dele e depois vamos voltar tudo para trás, mas à velocidade que ele conseguir, não é a velocidade que eu quero. Por isso, se tiver que ser 15 km por dia, vai ser isso. OK. OK. Ya. Ok. Muito obrigado, José, por tua tua partilha. Foi foi muito foi muito bom. Gostei muito. Foi umas histórias muito giras para para partilhar. Já sabem, leiam a descrição do episódio, como todas as informações. Para quem quiser fazer esta viagem ou se inspirar nela. pode fazer também no sentido contrário, apesar da da V ser no sentido. Eh, já sabem, se gostarem, partilhem com os vossos amigos, subscrevam o canal nas várias plataformas de podcasts e no YouTube, ativem as notificações para saberem quando saem novos episódios, deem a classificação, façam os vossos comentários. Ah, se não gostarem, partilhem com os vossos inimigos. Até o próximo episódio e boas pedaladas. Obrigadão. Obrigado, Zé. Pá, foi muito fixe, pá. Tí.
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